Traduzir-se

Pintura de Vicente Romero Redondo
Dias atrás encontrei dentro de um de meus livros, folhas soltas de um antigo caderno, no qual eu tinha o hábito (quando adolescente) de copiar as poesias, textos e frases com as quais eu me identificava ou que simplesmente gostava. Assim, o caderno era um emaranhado de temas distintos, uma vez que como qualquer adolescente meus sentimentos viviam em profunda e constante oposição, modificação e alteração.

Ao folhear aquelas páginas me deparei com o belíssimo poema “Traduzir-se” de Ferreira Gullar e me recordei que quando o li pela primeira vez me identifiquei completamente! Para mim ele era a representação poética do meu ser em sua total dualidade.

Então reli o poema e qual foi minha surpresa ao perceber que ainda me encontro em suas estrofes! Entre a primeira e a segunda leitura passaram-se 15 anos! Sim quinze anos! Neste período me reinventei inúmeras vezes e várias mudanças moldaram não só minha aparência, mas também minha personalidade, conceitos, valores e sentimentos. É notável que a leitora atual muito difere da antiga, porém o impacto de autoanálise e a descrição da natureza dúbia existente em cada um de nós e apresentada no poema, sobreviveu a passagem dos anos e as mudanças que sofri.

Acredito que as palavras possuem o infinito poder de sobreviver a incansável passagem do tempo e de tocar profundamente a alma dos leitores que se deixam invadir pela magia que elas possuem.
Segue abaixo o poema:

Traduzir-se
Uma parte de mim
Pintura de Vicente Romero Redondo
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
Ferreira Gullar
          
                                      

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